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segunda-feira, 26 de março de 2012

dia #8 - helô

se você está no trânsito em itapecerica da serra, vai se sentir como se estivesse em qualquer parte da índia. é sério: cachorros, cavalos, carros, bicicletas, pedestres, carrinhos de sorvete e de açaí, tudo junto e ao mesmo tempo. algum carro te fecha pela direita, uma moto estoura o escapamento para chamar atenção, um carro toca funk no último volume achando o máximo ouvir o anasalado "eim, seiqueláseiquelá, eim, não sou de ninguém, não sou de ninguém" ou a música que o neimar dançou [que saudade do pagodinho da vassoura! haha]. é, não tem nada de mágico nesse quadro.
mas hoje, no meio do caos, depois de xingar mentalmente uma pessoa que me fechou pela direita e que ouvia o "eim!", passou bem no para-brisa do carro uma borboleta branca e azul-clara do tamanho de uma palma e meia da minha mão. era linda, nunca tinha visto uma borboleta tão grande. quando cheguei no escritório, vi outra igualzinha, da mesma cor, nem acreditei. depois apareceu uma amarela toda desenhada, outra preta com azul metálico e branco, e fiquei pensando em como elas conseguem ser tão bonitas e em como elas são tão perfeitas para representar as nossas mais profundas mudanças.

dia #8 - Carlos

Sempre gostei de escrever. Há, aproximadamente, um ano e meio, escrevi um texto que começa assim:

O que impede um homem de escrever suas memórias? Talvez a falsa impressão de que só as memórias de grandes estadistas, artistas, escritores e pessoas que viveram alguma experiência invejada ou fora do comum para a maioria das pessoas devam ser contadas. Mas se são as memórias a única coisa que nos resta da vida (em vida, já que a memória da nossa morte não nos pertence, mas pertencerá aos que conviveram conosco), a quem é dada essa tarefa de julgar quais memórias merecem eternizar-se e quais devem ser entregues ao esquecimento?

Hoje, tendo que ler artigos e livros sobre História Oral, li o trecho abaixo, extraído da revista Projeto História, #15, da PUC:

“O respeito pelo valor e pela importância de cada indivíduo é, portanto, uma das primeiras lições de ética sobre a experiência com o trabalho de campo na História Oral. Não são exclusivamente os santos, os heróis, os tiranos – ou as vítimas, os transgressores, os artistas – que produzem impacto. Cada pessoa é um amálgama de grande número de histórias em potencial, de possibilidades imaginadas e não escolhidas, de perigos iminentes, contornados e por pouco evitados. Como historiadores orais, nossa arte de ouvir baseia-se na consciência de que praticamente todas as pessoas com quem conversamos enriquecem nossa experiência.”
Alessandro Portelli

As respostas para perguntas e inquietações de um ano e meio atrás, ou mesmo de muito tempo antes, estavam no futuro (o hoje e o amanhã) e eu nem tinha como saber. A verdade é que a vida responde tudo ao seu modo, no seu tempo, mostrando que o que nos move adiante são dúvidas, nunca certezas. Quem diria! Algo que escrevi sem compromisso, tornou-se objeto de interesse, de estudo e responsável por fomentar o futuro.

Coincidência (?).