quinta-feira, 31 de maio de 2012

dia #74 - Carlos

Difícil enxergar algo mágico em um dia que você foi forçado a não fazer nada por sentir-se mal, enjoado, com dor no corpo e sem nenhuma disposição. Porém, no fim do dia, me sentindo um pouco melhor, consegui entender, depois de ouvir as palavras de uma “bruxa”, o quanto essa parada forçada é produtiva para o corpo e a mente se recuperar de muitos males.

dia #74 - helô

pela primeira vez, ouvi dois adolescentes, meninos, tendo conversas sobre as meninas de que eles gostam. foi uma hora ininterrupta de conversa, e o melhor diálogo foi: "mano, ela veio falar comigo hoje". "e aí, véi? falou que gosta dela?" "falei, porque ela me perguntou." "mano, como assim?" "é, ela me perguntou se eu gostava dela, eu disse que sim, e ela me perguntou se algum dia eu falaria isso pra ela, se ela nunca tivesse me perguntado. eu disse que não." "e o que que aconteceu depois?" "nada, mano. ela virou as costas e foi embora." "carai, véi!" "pois é. mas eu acho que as meninas é que têm que estar no controle, eu acho..."

quarta-feira, 30 de maio de 2012

dia #73 - Carlos

Hoje, ouvi de pessoas distintas que a essência das principais religiões é a mesma: não fazer para o próximo, aquilo que você não deseja para si mesmo.

Pensei como ideias óbvias como essa simplificam sistemas filosóficos e políticos quase incompreensíveis.

O óbvio muitas vezes precisa ser dito.

dia #73 - helô

amor nas estações. amor de estações. amor de baldeações.

dezenas de casais adoram namorar nas estações de metrô.

me lembrei de uma colega do espanhol que dizia ter boas recordações da estação tucuruvi. cada vez que ela se lembrava de seu amor, dizia: "aaah, tucuruvi...!". tudo começou ali.

dia #72 - Carlos


Terminei o dia dançando, literalmente. Os meus passos foram um fracasso, mas serviram para eu dar boas risadas. Acho que o ridículo é o nosso lado mais divertido.

terça-feira, 29 de maio de 2012

dia #72 - helô

mais um livro que vale a pena ser lido, cinderela mudou de ideia, de myriam sierra e nunila lópez.
chorei no ônibus mais uma vez, pois o que acontece com essa cinderela, está bem próximo do que aconteceu comigo antes de eu me encontrar com a fada do chega! [mas dessa vez tinha óculos escuros para disfarçar.]
indico para todas as minhas amigas, colegas, conhecidas e até para as não tão amigas. 
presenteiem suas filhas e sobrinhas com este livro. é muito importante destruirmos os moldes que a sociedade impôs às mulheres. é um grito, um chega!, mas em forma de poesia, em nossa luta pela igualdade.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

dia #71 - Carlos

Trabalhou comigo, pouco tempo atrás, um professor de Filosofia que eu admirava pela coragem, pelo espírito inovador e desejo de construir um mundo mais justo e ético. Vê-lo chegar caracterizado, carregando uma caixa de som e, por meio do teatro, ensinar Filosofia, foi um exemplo de amor à educação.  Hoje, não tendo mais a oportunidade de trabalhar ao seu lado, continuo admirando suas iniciativas. Recebi por e-mail o vídeo de uma delas:

 

dia #71 - helô

observando quem passa por ele como se estivesse prestes a ser decapitado pelo relógio, anda sobre as esteiras sem pressa. chega à plataforma, vira pedra no meio do caminho e na manhã de muita gente, mas entra no trem junto com todo mundo que os ponteiros empurraram vagão adentro. senta-se, acomoda seu bornal sobre os joelhos e ouve um elogio. responde, "sim, eu quem fiz. esse bordado é o sol da minha terra". desce do vagão, sorriso no rosto, sobe as escadas alheio ao tempo, presente na vida.

domingo, 27 de maio de 2012

dia #70 - helô

sempre que recebo a revista vida simples, começo a leitura de trás para frente, para ler primeiro o que a soninha escreveu. em seus textos, dá para perceber o momento da vida que ela está vivendo: uma época de harmonia; outra de rompimentos; mais outra de bagunça na "casa" e, agora, parece que de reconhecimentos e renascimentos. 
depois de um tempão que a revista estava fechada sobre a mesa da sala, consegui abri-la. e lá estava a soninha falando que tem medo de ser feliz. e quem já não teve? eu já, e muito. vivi alguns muitos anos presa ao apego a sentimentos, a pessoas, a padrões comportamentais, a preconceitos.
pode reparar quantas pessoas à sua volta se acomodam na infelicidade e a veem como um padrão a ser vivido. na verdade, temos de ter medo é de viver inseridos somente em sofrimento, dificuldades, infelicidade, doença, mau humor, inveja, consumo compulsivo, comer compulsivo, insatisfações constantes com o companheiro ou a companheira. tudo isso está em todos os lugares, são lugares-comuns de uma vida mal vivida, mal aproveitada.
libertar-se de construções emocionais, sociais e familiares, construir sua própria felicidade e ter a coragem de ser feliz, exige luta diária contra a pobreza de espírito [nossa e dos outros], contra a preguiça, contra o desapego. uma vez que se decide perder o medo de ser feliz, se é. então, acho que o que a soninha disse no texto "Coragem de ser feliz!", temos de lembrar todos os dias: "[...] vê se mergulha na felicidade como na água boa da piscina do fim da tarde, curte a sensação de não ter peso; nada ou flutua, mergulha de pé ou de cabeça conforme a vontade e deixa para passar frio - ou não - quando estiver do lado de fora. Tenha respeito; não tenha medo da água.".

dia #70 - Carlos

Em uma semana marcada por reencontros e pela esperança (dias 66 e 69), quero começar a segunda-feira com essa canção em mente:


dia #69 - Carlos

O conformismo, escondido atrás de discursos cheios de retórica envolvente, aproveita-se das derrotas que acumulamos no cenário caótico da educação no país, do descaso das instituições com a construção de um conhecimento comprometido com a autonomia de pensamento dos jovens em oposição aos sistemas mercadológicos de ensino, para nos levar a acreditar que nossa luta diária por uma realidade mais humana foi derrotada, triunfando o mundo que não oferece espaço para ideologias transformadoras.

Contra isso e em defesa da esperança, trago um trecho da Declaração de La Realidad, escrita pelo Subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional, em 1996, no México. (A declaração foi lida por uma professora da PUC que nos brindou com um discurso sobre a necessidade de resistirmos à falsa crença de que as ideologias estão mortas).

“Uma nova mentira nos é vendida como história. A mentira da derrota da esperança, a mentira da derrota da dignidade, a mentira da derrota da humanidade. O espelho do poder nos oferece um equilíbrio para a balança: a mentira da vitória do cinismo, a mentira da vitória do servilismo, a mentira da vitória do neoliberalismo.

Em vez de humanidade nos oferecem índices das bolsas de valores, em vez de dignidade nos oferecem globalização da miséria, em vez de esperança nos oferecem o vácuo, em vez de vida nos oferecem a internacional do terror.

Contra a internacional do terror representada pelo neoliberalismo, devemos levantar a internacional da esperança. A unidade, acima de fronteiras, línguas, cores, culturas, sexos, estratégias e pensamentos, de todos os que preferem a humanidade viva.

A internacional da esperança. Não a burocracia da esperança, não a imagem inversa e, portanto, semelhante àquilo que nos aniquila. Não o poder com novo signo ou novas roupas. Um alento sim, o alento da dignidade. Uma flor sim, a flor da esperança. Um canto sim, o canto da vida.
A dignidade é essa pátria sem nacionalidades, esse arco-íris que também é ponte, esse murmúrio do coração sem importar o sangue que o vive, essa rebelde irreverência que burla fronteiras, alfândegas e guerras.

A esperança é essa rebeldia que rejeita o conformismo e a derrota.”

dia #69 - helô

essa semana tem sido marcada por pequenas vitórias e muita sorte. uma cirurgia pela qual eu teria de passar, não terei mais, fiquei boa. dois textinhos que escrevi serão publicados. não teve greve do  metrô no trecho que eu uso. achei o melhor alfajor do brasil [rs]. e tomei o pingado no copo americano mais chique do mundo! atravessei um pontilhão a pé e estou bem. um ônibus lotado que eu ia pegar, mas resolvi fazer uma horinha e o perdi, se envolveu em um acidente feio e um motociclista morreu. hoje mesmo, apesar de estarmos muito cansados do dia, resolvemos passear um pouco e, na marginal, havia um acidente meio grave, que não presenciamos.
coincidências, intuição e  um anjo da guarda poderoso têm estado muito presentes neste momento da minha vida. quando polimos algumas arestas, parece que um canal se abre, tudo flui e nos sentimos mais confiantes de que estamos trilhando o caminho correto.

sábado, 26 de maio de 2012

dia #68 - Carlos

Assistir A vida é bela, acompanhado dos meus alunos, foi como confirmar que mágicas cotidianas existem. Guido, o protagonista, sabe melhor do que ninguém enxergar a beleza que a vida varreu para debaixo do tapete. Tremenda lição.

O curioso é que no final do filme, meus alunos do 9º ano agradeceram a sessão de cinema. Não me lembro de uma outra turma ter agradecido pelo filme exibido.

É a primeira vez que exibo em sala A vida é bela...

dia #68 - helô

hoje só notícias boas! há muitos mistérios entre o céu e a terra. nossa vã filosofia não sabe de nada mesmo, oxalá!

quinta-feira, 24 de maio de 2012

dia #67 - helô

mãe e filha sentadas. uns 40 anos e uns 7 anos. a filha, muito vaidosa, pergunta à mãe se está bonita cada vez que mexe em seus cabelos. a  mãe permanece muda, como se não a ouvisse mais. mas a menina está tão empolgada, põe o chapéu, o tira, o põe de novo, mostra os sapatos rosa e prata... ela é especial e vive em seu próprio mundo, feliz. a mãe, por sua vez, senta de lado, protegendo a filha do mundo de fora.

dia #67 - Carlos

Antes do recreio, um aluno tirou da mochila um sanduíche embrulhado num guardanapo que também servia como bilhete. Consegui ler "...a mamãe te ama". Achei singelo.

dia #66 - helô

o melhor do meu dia hoje ainda está por vir, mas já está presente: estou indo dormir com a sensação de dever cumprido, dia bem vivido e barriga cheia [rs]. :)

dia #66 - Carlos

Hoje fui presenteado, ganhei um livro. Mas o verdadeiro presente que ganhei foi uma dedicatória, lembrando-me da chama interior que, não muito tempo atrás, lançava-me esperançoso contra tudo aquilo que o mundo me mostrava estar errado.

As palavras escritas na guarda do livro forçaram um encontro adiado por mim: o encontro do Carlos Assis com o Carlos Assis – assim como no conto O outro, do Borges. O primeiro Carlos é esse, escrevendo aqui e agora no presente; o segundo, é o Carlos que não usava óculos, não tinha fios brancos na barba nem no cabelo, fazia a barba quando dava na telha e, às vezes, o que dava na telha era pintá-la de vermelho; esse outro Carlos tocava violão dedilhado, não usava paleta e só gostava de cordas de náilon; desenhava nas paredes do quarto ao lado de um cartaz com a caricatura de Fernando Pessoa e um trecho do poema Tabacaria; escrevia seus próprios poemas e jogava-os fora por achá-los um lixo; trabalhava meses para conseguir dinheiro e gastá-lo em trinta dias numa praia do litoral norte, tendo os amigos e os pacotes de macarrão como companhia; lia Marx, detestava o Capitalismo e escrevia seus achismos com liberdade, sem se preocupar com as chatices do rigor acadêmico; corria por entre os carros na Estrada de Itapecerica montado numa bicicleta ridiculamente amarela fluorescente; amava o pai e a mãe, mas só dizia à avó o quanto a amava...

O Carlos daqui do presente, disse ao outro, o que vive nos anos noventa, que a vó morreu (...), a Estrada de Itapecerica está cheia de carros e, inclusive ele, vai ter um Uno preto e levar dezoito meses para pagá-lo; também falou para ele começar a se acostumar com o rigor acadêmico, e, se quiser liberdade para escrever, é só criar um blog; o Marx vai ficar meio de lado porque a vida aqui em dois mil e doze não oferece o tempo necessário para decidir o que ler – vão fazer isso por você; você vai deixar de gostar de praia, vai preferir conhecer cidades, de preferência as grandes; a companhia dos amigos vai ficar cada vez mais rara, eles também devem estar pagando os seus Unos pretos em dezoito prestações; em compensação, você vai se casar, e sua esposa vai valer por muitos, muitos amigos; você não vai mais jogar fora seus textos e poemas, você vai guardá-los em um caderno de capa verde; não vai mais desenhar nas paredes, bem... você vai parar de desenhar; você vai trocar o violão por um violoncelo, mas depois de uma audição desastrosa, você vai esquecê-lo num canto da casa do pai e da mãe; se acostume com o preto da barba, ela nunca mais será vermelha e, quando ela deixar de ser preta, será para ficar branca; você terá um grau de miopia e astigmatismo nos dois olhos...

Depois de alguns minutos em silêncio, o outro, o Carlos dos anos noventa, olhou para mim e disse:

“Você tinha se esquecido de mim, não?”

“Tinha.”

“Você esqueceu como o mundo era do tamanho da sua mão?”

Antes que eu respondesse ele montou a sua ridícula bicicleta amarela fluorescente, virou para trás um boné do Charlotte Hornets que eu adorava e foi embora pedalando.

***

Obrigado pelo presente, Júlia.

terça-feira, 22 de maio de 2012

dia #65 - helô

recebi um elogio ao blog hoje que me fez pensar no poder das palavras.

o que expressamos verbalmente para outro nem sempre é ouvido como se deveria. mas também tem vezes que jogamos palavras ao vento, principalmente quando falamos muito. a verborragia não é levada a sério, porque ela cansa. 

mas, quando escrevemos, as palavras ficam registradas. elas podem ser lidas, relidas, contestadas, plagiadas, consideradas ou não. a identificação com o que está escrito, com o que estamos lendo, tem muito poder em nossas vidas: além de construir a imagem de quem escreveu, ajuda a construir a nossa própria imagem, faz com que nos questionemos, faz as emoções se movimentarem.

as palavras têm mesmo poderes mágicos. quero ver quem me prova o contrário!

dia #64 - Carlos

Li em algum canto que dormir oito ou nove horas aumenta a longevidade. Tomar conhecimento disso é o primeiro passo para eu viver mais. Só espero que eu não passe os novos anos conquistados preenchendo-os com obrigações que parecem não se esgotar jamais.

dia #64 - helô

olho milho! olho milho! e lá vem o vento brincar de trazer aquele cheiro doce que só o milho tem.
fiquei olhando o milho, namorando o milho, desdenhando o milho dos outros por 1 mês e 12 dias. hoje, realizei meu desejo e comecei minha saga “comida de rua é boa, mas mantenha a receita secreta, por favor”. O milho estava booom! próxima parada: churrasquinho de gato!


domingo, 20 de maio de 2012

dia #63 - Carlos

Cheiro de curral, um lago, uma vara de pesca e um céu azul.

dia #63 - helô

passei o dia observando as galinhas e seus pintinhos, as vacas e seus bezerros, os patos nadando e as cerejas do café verdinhas, prontas para amadurecer.

***
 
hoje é o aniversário da minha mãe, 71 anos. passamos o dia todos juntos, comemos, rimos, conversamos. foi muito bom. 

dia #62 - Carlos

Negociar com o despertador é derrota na certa. Duas horas atrasado, sem tomar café da manhã e, depois de muito correr, descubro que a professora faltou. Não tem nada não. Voltar para trás? Nem pensar. Junta os amigos, hoje é dia de feijoada. Mesa comprida, prato cheio, caipirinha e longas risadas, daquelas galopantes que eu já falei aqui.

O dia que era para não ser foi melhor que o planejado.

sábado, 19 de maio de 2012

dia #62 - helô

tem vezes que nos acomodamos com situações e vamos nos deixando levar, sem saber para onde estamos indo. isso sempre me incomodou e, quando chegava ao ponto de estar à deriva, sempre remava contra a maré. eu sou assim, não gosto da calmaria que nos coloca em um estado de inércia e apatia. mais resoluções tomadas e isso faz eu me sentir bem.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

dia #61 - helô

quando cheguei em casa, uma surpresa: o carlos tinha feito o banner do blog! fiquei muito feliz e, ainda mais feliz por ele ter escolhido a imagem do fotógrafo haruo ohara. vimos uma exposição da obra fotográfica dele na Fiesp, em 2010, e, desde então, ele tem sido nosso fotógrafo preferido. cada foto dele conta um conto, uma mágica cotidiana.

dia #61 - Carlos

Diante do impasse de mergulhar nos livros de Martín Kohan ou usar o pouquíssimo tempo livre que tenho com as obrigações da pós-graduação, perguntei-me, tendo em mãos Ciências Morais e Segundos Fora – as duas obras do escritor portenho que encontrei traduzidas para o português e à venda nas livrarias –, por que admiro tanto a literatura, o cinema e a música argentina?

O diálogo que a literatura argentina (não só ela, mas boa parte da literatura hispano-americana) mantém com a história, prova o quanto o passado é caro para os argentinos. É como se a literatura mantivesse as feridas do passado abertas na memória, causando desconforto, exigindo reparo e cura; principalmente as feridas provocadas num passado não tão distante. É uma literatura que tem um compromisso enorme com a história, que fala do presente, mas não permite que nos esqueçamos do passado, acabando por interferir em nosso posicionamento na construção de novas perspectivas para o futuro.

Diálogo parecido é mantido entre o cinema argentino e a história. O filme A história oficial, ganhador dos óscares de melhor filme estrangeiro e melhor roteiro original, em 1986, fala por si. Mas longe de se limitar ao cinema político, a Argentina faz um cinema, que, mesmo quando atende a demandas mercadológicas e modismos estéticos que tornem seus filmes atraentes para ingressarem nos grandes circuitos, nos convida a pensar e dialogar com o mundo que nos rodeia. Um exemplo recente é o romântico Medianeras.

Penso que esses diálogos todos entre a história e as artes refletem menos temores ao lidarmos com os temas que nos angustiam e desagradam; encorajam-nos a incluir na pauta do dia as derrotas que a maioria de nós, latino-americanos, não quer enxergar, resultando nessa felicidade incapaz de ultrapassar os noventa minutos de uma partida de futebol.

Penso que aí reside a força da arte argentina: nos diálogos possíveis entre aquilo que atormenta e transforma. Como num tango de Piazzolla, em que se atinge o limiar entre o sagrado e o profano, a angústia e o gozo sem fim.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

dia #60 - Carlos

Gostaria de andar pelas ruas e, para cada muro que eu olhasse, cada outdoor que eu visse, cada letreiro que eu lesse, eu encontrasse o refrão dessa canção:


Quem sabe isso aplacaria a ansiedade das mudanças que um dia chegarão, mas que por hora tardam e tardam e tardam...

dia #60 - helô

a mágica do meu dia hoje foi meio que negra. passou feito tornado, me levou pra cima e pra baixo, mas fez desaguar o ar e ventar a tempestade. quando esse tipo de coisa acontece, a melhor coisa a fazer é trocar de direção, ficar bem longe do foco. e transformar toda essa energia que jogam na gente, quando o sentimento acalmar, em aprendizado.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

dia #59 - Carlos

Trocar o elevador pela escada é encurtar a espera, aumentar distâncias, brigar com o peso da mochila, acender magicamente as luzes de emergência, provocar o cachorro que vive no 12, ouvir uma conversa de alguém que fala ao telefone no segundo andar, saber que no 31 terão peixe no jantar, ouvir a panela de pressão que começou a funcionar no 33, descobrir que amanhã o tempo esquenta pelo rádio na cozinha do 42 e... descobrir que você esqueceu a chave de casa no carro.

dia #59 - helô

o número de cachorros de rua em itapecerica ultrapassa o de habitantes. encontro com muitos deles no caminho para o ponto de ônibus e eles constituem cenas que fazem a diferença na manhã. por exemplo, ontem, um ciclista teve de descer da bicicleta, pois ele achou que eles encasquetaram com ela. só que, na verdade, encasquetaram foi com ele. o cidadão ficou realmente revoltado e disse para as pessoas que passavam pela rua: "o que que será que deu com esses cachorros". ele não conseguia sair do lugar.  eram seis cachorros, uma matilha diferente, e tinham um líder: o cão cotoco. reparei bem nele e nos caramelo e malhado que faziam parte de sua trupe. 

hoje, no mesmo caminho de todos os dias, os encontrei novamente. de longe, vi que estavam na frente de um homem superalto, como se fizessem sua guarda a ele, e pararam o trânsito na faixa de pedestre para ele poder atravessar. o homem, com duas mexericas nas mãos, passou como um rei com seus companheiros, tirou o boné para cumprimentar uma senhora que esperava para atravessar, e continuou sendo escoltado por sua matilha. outros cães latiam feito doidos assim que ele passava e emudeciam assim que ele lhes dava as costas.

eu conheço o encantador de cães.

terça-feira, 15 de maio de 2012

dia #58 - Carlos

Exercitar o olhar para o belo que se esconde na objetividade dos dias têm se tornado uma tarefa diária desde que eu e a Helô começamos o blog. Muitas vezes essa beleza é latente, outras é velada – nesses casos, preciso de uma lupa no lugar dos óculos. Quando é latente, chego a pensar que o dia foi bom, mas, depois de 58 dias de treino, começo a notar que a beleza escancarada é fácil, basta seguir os olhares e risos dos outros; difícil é notar os mistérios que o belo carrega consigo. Peguemos como exemplo os tucanos. Eles começam a aparecer nas bandas de cá nessa época. Seu grasnar grave já é conhecido e leva as pessoas a buscarem nas copas das árvores a sua beleza. Ao encontrá-los empoleirados, sorriem, apontam-nos, munem-se de suas máquinas fotográficas e celulares para capturarem e eternizarem sua beleza. Esquecemos a existência dos pardais, bem-te-vis, joões-de-barro; das pombas, cotovias e todos os outros pássaros que passam em revoada a todo instante; pássaros que nos meses em que os tucanos não nos visitam, preenchem as horas com o seu canto e, laboriosamente, graveto a graveto, constroem seus ninhos nos lugares que julgam ser o mais seguros.

A verdade é que observando os tucanos por mais tempo, nota-se que eles chegam nessa época e saqueiam os ninhos, comem seus ovos ou os pequenos filhotes, afugentam os pais e provocam uma reação de desespero nas mães, que, ao retornarem com o alimento no bico, encontram seus ninhos vazios.

Ano que vem os tucanos voltam, assim como os ladrões de Os sete samurais.

A obviedade esconde outras formas de beleza. Treinar o olhar para elas é não se impressionar com a beleza que reside no óbvio.

dia #58 - helô

duas pessoas que marcaram minha vida, mesmo que brevemente, foram minha avó parterna, Leonor, e o avô dos meus primos, o vô Bruno. eram muito amorosos e ambos morreram no dia do meu aniversário, quando completei 3 e 8 anos, respectivamente. como vejo sentido nas pequenas coisas, penso que há um significado oculto por terem viajado bem nesse dia, que acho que ainda não compreendi. talvez um desapego que devo ter com os que amo? não sei.

sempre que leio a biografia de um escritor, cineasta, desenhista, de qualquer pessoa que admiro, confiro a data de nascimento e morte. acredito em astrologia. clarice lispector também morreu no dia do meu aniversário, mas um ano antes de eu nascer. e ela nasceu um dia depois do dia do meu aniversário. o que isso significa? para alguém racional, talvez nada. mas, para mim, é nas entrelinhas do que ela escreve que me reconheço e me identifico totalmente. ela praticamente lê minha alma.

o que de mais bonito eu li no dia. obrigada, clarice.

A descoberta do amor
“[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.
Até mais que treze anos, por exemplo, eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. [...] Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Já então eu me transformara numa mocinha alta, pensativa, rebelde, tudo misturado a bastante selvageria e muita timidez.
       Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, o que poderia ter sido evitado se um adulto responsável se tivesse encarregado de me contar como era o amor. [...] Porque o mais surpreendente é que, mesmo depois de saber de tudo, o mistério continuou intacto. Embora eu saiba que de uma planta brota uma flor, continuo surpreendida com os caminhos secretos da natureza. E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é por pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.”

segunda-feira, 14 de maio de 2012

dia #57 - Carlos

Depois de um primeiro ato desastroso, deixemos a mágica do dia para o foyer, onde, quem sabe, estará tocando Coltrane.

Depois de uma bebida suficientemente forte, o segundo ato pode nos reservar surpresas.


dia #57 - helô

neste dia frio e chuvoso, em que nada o convida para colocar o pé na rua, eu pude trabalhar em casa. foi tão bom que o frio passou longe daqui e eu tive o pseudo-domingo que eu queria ter tido ontem.

domingo, 13 de maio de 2012

dia #56 - Carlos

Júlio, personagem narrador de Caminhando na chuva, falando sobre a escola e alguns de seus professores:

"O que a gente ensina ou aprende: nomes, datas, fórmulas, isso não tem valor nenhum, isso o tempo come; mas o que a gente ensina de vida, ou aprende, isso nunca não esquece."

Acho que com isso eu começo uma nova semana e encerro a anterior, que terminou repleta de coisas para não se esquecer.

dia #56 - helô

há pessoas que imaginanos que sempre estarão presentes em nossas vidas, as temos como garantidas, e nos esquecemos de que, a qualquer segundo, tudo pode mudar. fico feliz por ter minha mãe por perto e poder dar um abraço, um beijo e dizer que eu a amo todos os dias.

dia #55 - Carlos

Hoje presenciei uma atitude que julguei ser fruto da permissividade que têm produzido indivíduos cada vez mais mimados e incapazes de lidarem com suas dificuldades, frustrações e, o pior, com pontos de vista diferentes daqueles que expõem e defendem.

A pessoa, durante um ateliê de cinema, abandonou o auditório simplesmente por ter seu ponto de vista contestado e confrontado. Perguntei-me: como um professor pode ter tal comportamento? Como alguém que deveria lidar com a diversidade e promover debates nos quais os pontos de vista devem fluir e se contraporem, posiciona-se dessa maneira? Fiquei sem resposta e pasmado com o que vi.

Por outro lado, o professor responsável pelo ateliê era uma dessas figuras raras, com quem, infelizmente, não temos o privilégio de conviver. Alguém que respeita as falas mais ingênuas e pede licença para fazer interferências que julga necessárias. Enfim, alguém que ensina e educa pela postura e não só pelo conhecimento.

A convivência com pessoas assim nos humaniza e nos faz esquecer do embrutecimento de alguns (como o da colega que se omitiu quando poderia construir em conjunto novas perspectivas sobre um assunto); convida-nos para construir um conhecimento que está incompleto e nos lembra de nosso papel como sujeito, negando a ideia de sermos meros espectadores da batalha travada, diariamente, por um mundo melhor.

Prof. Dr. Mauro Luiz Peron, obrigado!

***

Treinar o olhar para enxergar aquilo que a cidade esconde, fez eu e a Helô encontrarmos o local ideal para conversarmos sobre o dia e a vida.

sábado, 12 de maio de 2012

dia #55 - helô

o gato malhado e a andorinha sinhá. meu livro desse fim de semana. é um infantojuvenil do jorge amado, que vim a conhecer por causa da simone d'alevedo. é a história de um amor impossível, e meu coração já quer ficar partido porque estou torcendo muito pelos dois, mas já li o final... é uma homenagem à natureza, planta, animal, ser humano.
"Com um beijo, a manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a camninhada em direção ao horizonte. Semiadormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. [...]"

dia #54 - helô

nos assentos do metrô, sentido paraíso, um grupo de jovens ou adultos com síndrome de down seguia em sua primeira viagem de metrô. criando histórias de bandidos com armas [os policiais da estação], conversando bastante com os tutores e curiosos em saber quem era a pessoa a quem o tutor acenou na plataforma, me peguei os observando.

ainda não sei lidar com essa diferença e me senti perdida: não sabia se podia continuar os observando, que era o que eu queria [assim como fico olhando os livros que as pessoas estão lendo e às vezes dou uma lida de lambuja], ou se meu olhar seria mal interpretado, como se fosse um julgamento. a verdade é que, na minha mente, criei uma barreira e nem sei o porquê. talvez seja o fato de lidar com o diferente, com o que me é desconhecido, com o que não penso nem convivo diariamente...

antes de encontrá-los, estava lendo o livro do oliver sacks, vendo vozes, que trata sobre a questão dos deficientes auditivos. esse livro caiu em minhas mãos há dois dias, e eu também nunca havia pensado em como eles se relacionam com o mundo... essas questões são fascinantes, a diversidade do olhar o mundo, de viver em sociedade, de conviver com as limitações.

acho que tanto esse encontro no vagão quanto a leitura foram coincidências para quebrar preconceitos e barreiras, para abrir a mente, para me aproximar do que me é diferente e desconhecido. pensei o dia todo sobre isso e fiquei feliz por não ter deixado essas coincidências passarem despercebidas.

dia #54 - Carlos

Compartilhar derrotas fortalece amizades. Derrotas só são compartilhadas quando há confiança.  Amigos que só compartilham vitórias criam vínculos superficiais, servindo apenas como meio para aflorar a vaidade dos que não reconhecem a pluralidade da vida.

Hoje devo agradecer a humildade de um amigo que dividiu comigo suas derrotas, angústias e, também, as suas vitórias. Não há maior demonstração de confiança. Obrigado.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

dia #53 - helô

conversavam sobre a morte e placas de concreto sobre caixões em uma vala comum com pelo menos seis pessoas. a terra, para a surpresa da filha, só vinha por último. ela ficou feliz que o caixão da mãe estava separado dos demais. mas a alma da mãe pouco ligava para onde o corpo estava. tanto fazia concreto, terra, madeira.

vim pensando na morte, no tempo que passa, em como não perder tempo com coisas que não valem a pena. fiquei feliz por estar me afastando de situações que não trazem nada de bom, de não sorrir à toa, de fazer o bem a quem retribui o bem. tenho me envolvido menos nos problemas dos outros e percebi que o que eu achava que era altruísmo, na verdade era uma tremenda intrusão.

quando encontramos nosso caminho nessa vida, é importante não nos desviarmos dele. e isso dá um trabalho diário e tanto, porque uma atitude dessas incomoda os outros feito elefante no fusquinha. aprendi, apanhando bastante, que muitas pessoas querem o nosso pior e nos fazem pensar o contrário. mas, sabe, no dia em que a morte vier me buscar, eu tenho certeza que vou sorrir pra ela e segui-la sem medo. meu caminho já terá sido percorrido. e tanto vai fazer concreto, madeira, terra, vaso, memória. o que vai valer é que eu usei o meu tempo aqui com o que e com quem eu acredito, vou ter feito bom uso do presente que a vida me deu.

dia #53 - Carlos

O silêncio que acompanha as primeiras horas da manhã é um convite à leitura.

A cafeteira que chia, vocifera e engasga enquanto passa o café, lança no ar o aroma, que, pouco a pouco, constrói o dia e, por mais previsível que ele possa vir a ser, ainda pode reservar alguma surpresa – não é essa expectativa que nos faz insistir na rotina ou torná-la menos penosa?

Ainda que a surpresa se faça presente, por que abrir mão do momento?

Sirvo-me de café. Xícara cheia. Abro o livro que o sono da noite passada me impediu de continuar lendo e, garanto ali, naquele instante, a surpresa que a manhã de hoje não podia assegurar que ocorreria ao longo do dia.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

dia #52 - helô

indo para o trabalho, reli dois livros essenciais para a alma e para a diversão.

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tempo de voo, de bartolomeu campos de queirós, tem de estar na cabeceira de todos. sorte eu ter ganhado bartolomeu lendo a história antes de ver o livro. na primeira vez que ouvi [e nas seguintes] chorei um tempão. hoje só chorei um pouquinho por fora, mas por dentro... 

o dariz, de olivier douzou, é pura diversão. bem de gondo gomo ri! é buido diberdido! bale a bena! leiam esse libro baga os seus bilhos, ou bara bocês besbos, ou bara um abigo... buga magabilha!

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meu dia de trabalho começou melhor. o tempo foi bem usado.



dia #52 - Carlos

Antes de escrever o texto de hoje, enchi meia página do word com uma reflexão sobre o ensino de História. Não aguentei o tom acadêmico e, por mais que aquilo que pensei tenha algum valor, no fundo, não era o retrato do dia de hoje.  Segurei o backspace e deixei o cursor sumir com o texto.

O retrato de hoje é a abertura de uma série que tenho assistido sempre que o tempo livre me permite sonhar. A abertura de Parenthood é a edição que fazemos das nossas lembranças, escolhendo, de dentro do turbilhão que é a memória, aquilo que preenche de significados positivos a nossa vida e varrendo para debaixo do tapete as hostilidades e os desagrados que as relações humanas costumam provocar.